Desconstruindo o mimimi. E a busca pelo equilibrio entre o negacionismo e o alarmismo.

Ser humano é sofrer. Ninguém consegue isenção.

O sofrimento nos enche de dor e dúvida.

Não há emoção que seja mais espontânea e individualizada que o sofrimento.

Neste texto quero pontuar breves reflexões que estou tendo sobre esse momento que estamos vivendo, e recorri a leitura de um livro chamado Lamentações que na forma de um poema acróstico (cada versículo se inicia com uma letra do alfabeto hebraico) relata o sofrimento que o povo de Israel viveu enquanto estava no exílio.

A experiência do sofrimento desenvolve o sentido de relevância.

Se outras pessoas choram comigo, é porque deve haver mais no sofrimento que o meu próprio sentimento de perda. Quando pessoas se juntam ao sofredor, há uma “validação consensual” segundo a qual o sofrimento significa algo. A comunidade decide com suas lágrimas que o sofrimento é digno de choro.

Mas, quando a comunidade não dá ouvidos a algo — quando não há uma alma à minha volta que se preocupe comigo —, então o sofrimento é anulado.

Na psicanálise entende-se que essa anulação pode desencadear em uma repressão. Que por sua vez poderá ser respondida ao nosso corpo com a somatização, também conhecida como  doenças psicossomáticas. Essas doenças são desordens emocionais ou psiquiátricas que afetam também o funcionamento dos órgãos do nosso corpo. Enxaqueca, dores no corpo e alergias são um dos exemplos.

Cuidado com as técnicas para aliviar o sofrimento.

Vincent Van Gogh: Sorrowing Old Man. Maio de 1890.

O sofrimento é um estado que estamos particularmente vulneráveis. Tratar o sofrimento como um problema é diminuir a pessoa. O fato de que Lamentações não oferece meios para um encantamento ou fórmulas mágicas para garantir a proteção contra os efeitos da ira divina — prática comum nas civilizações vizinhas de Israel — serve de advertência contra a aquisição de “técnicas” para aliviar o sofrimento.

O livro de Lamentações não é um plano que nos ensina a administrar a dor.

Nada diminui mais a pessoa que sofre do que procurar minimizar sua dor. E nada pode dar mais sentido ao sofrimento que o levar a sério, oferecendo à pessoa que sofre nossa companhia e até mesmo a indicando buscar terapia e grupos de apoio.

Peça ajuda.

Colocarei nessa reflexão fragmentos do livro de Lamentações.

Eu desisti da vida.

Esqueci o que é uma vida boa.

Lembro-me de tudo — ah, e como lembro!

o sentimento de chegar ao fundo do poço.

Quando a vida está difícil de suportar,

entregue-se à solidão. Recolha-se ao silêncio.

Curve-se em oração. Não faça perguntas.

Espere até que surja a esperança.

Não fuja das provocações: encare-as.

O pior nunca é pior.

O Eterno se mostra bom para aquele que espera nele.

Ele não tem prazer em tornar a vida difícil,

em espalhar pedras pelo caminho.

O Eterno nós da um novo começo.”

Não busque a negação da realidade e não se entregue ao pavor.

Vimos que a negação da realidade e a anulação do sofrimento causam males como a somatização em você e em pessoas ao seu redor.

Por outro lado, o alarmismo e o pavor também nos leva ao caminho de instabilidade que fazem retroalimentar a ansiedade e o caos interno, que inevitavelmente nós gera doenças psicossomáticas, e porque não dizer também danos espirituais.

Por isso, peça ajuda. Não é mimimi.

Pablo Picasso: Weeping Woman. 1937

Os três arquétipos de alguém perdido.

Na origem grega, arquétipo significa o primeiro modelo. Romeu e Julieta é um arquétipo de amor impossível. A Madre Tereza simboliza alguém que tenha muita bondade. Corinthiano é o ícone de alguém que seja ladrão (claramente um estereótipo construído por ressentidos que não são bicampeões mundiais).

Neste texto irei abordar três tipos de arquétipos de alguém que se encontra perdido. De acordo com três parábolas, registradas em Lucas 15, contadas por Jesus.

1. Aquele que se perde por estupidez.

“Imaginem que um de vocês tenha cem ovelhas e perca uma delas. Será que não vai deixar as noventa e nove no pasto para ir atrás da que se perdeu? E, quando a encontrar, ficará feliz da vida e a levará nos ombros de volta para casa. Vai até chamar os amigos e vizinhos e dizer: ‘Vamos comemorar! Encontrei a ovelha que eu havia perdido!’. Acreditem, há mais alegria no céu pela vida resgatada de um pecador que por noventa e nove pessoas que acham que não precisam de salvação”.

Ovelhas são conhecidas por sua falta de inteligência. Não à toa existe aquela expressão: “fulano foi para tal lugar como uma ovelha vai para o matadouro”. O abate de bois é esperado com muito berro e esforços frenéticos para escapar, mas as ovelhas vão para sua morte quietamente, sem resistência.

Algumas pessoas têm a mesma capacidade — não parecem fazer algo deliberado ou intencional; simplesmente vagueiam e se afastam de Deus por pura ignorância e acaso.

2. Aquele que se perde por ter sido negligenciado.

Imaginem uma mulher que tenha dez moedas e perca uma delas. Será que ela não vai pegar uma lanterna e vasculhar a casa até encontrá-la? E, quando a encontrar, vai chamar os amigos e vizinhos e dizer: ‘Vamos comemorar! achei a moeda que eu havia perdido!’. Acreditem, cada vez que uma alma perdida se reencontra com Deus, os anjos também comemoram”.

Não foi culpa da moeda o fato de ter sido perdida. Alguém a perdeu. Você não pode culpar a moeda por isso. É assim que algumas pessoas se afastam de Deus. A falta de cuidado de um pai, o mau exemplo de um amigo respeitado, o conselho de algum líder famoso que foi seguido à risca.

Foi a falta de cuidado de alguém.

Aproveito este último exemplo para indicar um livro chamado Feridos em Nome de Deus. Uma narrativa inspirada por pessoas que conheci pessoalmente.

3. Aquele que se perde por rebelião.

Meu último arquétipo é baseado na mais conhecida parábola: a do filho pródigo.

Difícil entender as razões do porquê o filho mais novo teve o impulso de pedir sua parte na herança e vazar daquela família.

O que sabemos é que ele passou a agir de forma indisciplinada e esbanjadora. O famoso ostentador do rolê. Não demorou muito e ele desperdiçou tudo o que tinha. E seu caminho o levou a ter vontade de comer a lavagem dos porcos.

Isso o fez cair na realidade. Ele pensou: “pô, se eu ao menos voltar a trabalhar como empregado para o meu pai, já vou estar no lucro.”

Enfim, pai e filho se reencontram e ele é recebido com beijos, abraços e uma grande festa.

Note, a sua rebelião o levou a não se perceber mais como um filho dele. E o pai nem deu bola para isso.

Quando achamos que a história havia acabado por aí, eis que surge um segundo personagem, o filho mais velho. Ele demonstra um outro tipo de revolta. A inveja pautada na meritocracia.

Percebemos nessa narrativa é que ambos os filhos estavam perdidos. E suas revoltas estavam camufladas e foram manifestadas de formas diferentes.

Mas e agora, tem jeito de eu deixar de ser perdido?

Neste ano, ouvi um cantor chamado Jason Upton que havia lançado seu álbum chamado God Find Us (Deus nos encontra).

Deixarei a letra de sua música aqui como reflexão final.

Nós não encontramos Deus
Deus é quem nos encontra
Essa é a boa notícia

Essa é a boa notícia

Nós não encontramos Deus
Deus é quem nos encontra. Então, quem encontramos?
Bem, nós nos encontramos eventualmente, esperançosamente

E quando o fazemos, encontramos aquele que nos encontrou e nos amou muito antes
Nós poderíamos nos encontrar e nos amar
Pois somos moldados e formados pelas mãos de Deus
Somos firmados antes mesmo de podermos aguentar firmes
Somos amados muito antes de sabermos como amar

E como Jonas, mesmo quando fugimos de nossa vocação
Na maioria das vezes, acabamos dando de cara com Ele
.

God Find Us – Jason Upton.

Agora, para quem quer participar do primeiro sorteio, que será realizado no meu Instagram (@mateus_trindade) às 21h do dia 14/08/2020, clique aqui.

Quando as lágrimas valem mais que a Teologia.

Pare de ficar triste!

Deus está no comando de tudo! Por que você está assim?

São incentivadores comuns que ouvimos, não raras vezes por pessoas bem intencionadas.

O livro de Jó é sobre uma pessoa supostamente boa que passou um baita perrengue na vida. Do dia para a noite ele perdeu tudo: filhos, seus bens materiais e sua saúde.

Não demorou muito até seus amigos aparecerem para o consolar.

Porém, para seus amigos não havia espaço para o mistério. Nem para ambiguidade. Nenhum espaço para uma dúvida razoável. Eles tinham um moralismo matemático.

Segundo seus amigos, se Jó está sofrendo é possível apresentar uma explicação teológica.

Importante termos em mente que quando pisamos em terreno alheio, devemos tirar os calçados, e reconhecer que estamos caminhando em solo sagrado. Em linhas gerais, isso pode ser também entendido como responsabilidade afetiva.

Por isso, a primeira de dica de ouro é essa: apenas de seu comentário sobre alguém que esteja sofrendo ou angustiado se o outro pediu a sua opinião.

Na sociedade é bem comum encontrarmos pessoas que não seguem essa linha e se apressam para apresentar uma certa prescrição de medicação moral. Como se o mundo fosse em preto e branco. Sem tons de cinza, nem incertezas e nem ambiguidades. Faça isso e isso, e dará tudo certo.

E então, por isso agora apresento a segunda dica: as orações são mais úteis que as prescrições morais.

Digo isso porque algumas vezes, podemos criar uma situação desnecessária de condenação ao invés de conforto e compaixão.

E por que eventualmente agimos assim?

Acredito que nos falte humildade e até mesmo honestidade. Explico melhor.

Eu já me percebi no passado querendo ajudar as pessoas, porém, quando elas melhoravam ou se resolvessem nos seus conflitos, eu notava em mim um sentimento de irrelevância e inutilidade a partir dali.

Mas espere. Por que eu me sentia assim? Notei que estava ajudando para valorizar o meu ego. Criando assim uma relação de codependência: preciso de pessoas precisando de mim.

Como sair dessa?

Evoco Sócrates que nos ensinou a máxima: só sei que nada sei.

Nossa postura para ajudar alguém pode ter inspiração na filosofia ética socrática que nos incentiva a termos uma postura de humildade frente a situações complexas. Quando não queremos oferecer o melhor argumento. Mas sim, estarmos abertos a uma transformação interior, nem que isso seja estarmos expostos às nossas contradições.

Voltando a história de Jó, a teologia dos seus amigos era de regras a serem obedecidas; não de relacionamentos a serem vividos.

O mundo está cheio de pessoas assumidamente más que não sofrem, mas vivem no luxo até o fim de seus dias, e tudo lhes vai bem. A conta do mundo nem sempre fecha, por isso também existem as lágrimas.

Por essa razão, a terceira dica é que não podemos nos limitar a um moralismo simplista do tipo: se você está sofrendo é por que fez algo de errado ou Deus quer te ensinar alguma coisa. Esse moralismo simplista não dá espaço para as lágrimas.

Ao sermos rápidos para os clichês, e lentos para orar certamente podemos cair nesse equívoco de passarmos uma teologia fria.

Nós nunca iremos compreender totalmente a Deus. Logo, muito menos seu modo de agir, por essa razão não é recomendado em situações de luto ou de doença terminal apresentarmos discursos prontos. Acredito que isso vale também para esses dias atuais de pandemia.

Que nossas mentes não fiquem pequenas, nem nossas emoções limitadas! Tanto quanto a complexidade da angustia das pessoas que estão sofrendo em nossa volta.

Pedir à Deus por mais sensibilidade, é minha quarta dica.

Entre ter a falta de eloquência ou a insensibilidade. Tenha medo de ser insensível.

Há pessoas que estão chorando que não procuram encontrar uma resposta, mas sim serem encontradas por Deus. Não à toa, de tempos em tempos, não conseguimos o que queríamos, mas o que precisávamos.

Por fim, minha quinta e última dica é: tente deixar de lado a tendência que todos nós temos de dar respostas às perguntas, que alguém que está sofrendo nos faz. Em vez disso, responda estando presente no sofrimento dessa pessoa, sentando-se ao lado nas cinzas e chorando com ela.

Lembre-se de que o silêncio pode ser mais eloquente que o discurso, e as lágrimas podem ser mais eficientes que a teologia.

Não à toa, por duas vezes, a Bíblia registrou histórias que a resposta de Jesus para um problema era simplesmente o choro. Ainda que ele possa ser sim consolado, as lágrimas devem existir.

As lágrimas e o silêncio sendo mais eloquente que a teologia.

Anthony Levandowski quer criar religião tendo como deus a inteligência artificial (AI).

Anthony Levandowski foi um dos engenheiros responsáveis pelo transporte autônomo do Uber e Google (esta o processa por ter roubado dados confidenciais).

Ele pretende criar a igreja do futuro chamada Way of the Future. Levandowski acredita que “por meio da compreensão e adoração da Divindade (AI), contribuirá para o melhoramento da sociedade“.

O que parece ser mais um episódio distópico de Black Mirror nada mais é do que a realidade. Aliás, antiguíssima realidade e do instinto humano de ser como Deus é. A possibilidade de criar um deus é ainda mais tentadora.

Anthony Levandowski foto do site Business Insider.

 

A tendência da convergência religiosa com a tecnologia.

Pesquisei um pouco mais a respeito dessa parceria entre misticismo e tecnologia. E encontrei um outro nome: Reverendo Dr. Christopher J. Benek. Ele é conhecido como um tecno-teólogo e atua em áreas como inteligência artificial e cristianismo trans-humano.

E o que seria cristianismo trans-humano?

Antes de responder essa questão, fui atrás de saber o que é trans-humano.

Imagem do emulafanzine.blogspot.com

Creio ser esse o caminho mais próximo e provável que iremos conviver em breve. Trans-humanismo nada mais é do que um movimento intelectual que visa transformar a condição humana através do desenvolvimento de tecnologias amplamente disponíveis para aumentar consideravelmente as capacidades intelectuais, físicas e psicológicas humanas.

O cristianismo trans-humano, para Benek, nada mais é do que o cumprimento da promessa de Deus positiva de um futuro melhor. Para outros adeptos da fé cristã, negativa, um futuro apocalíptico em que muitos poderão ser enganados.

Esse é o caminho que faz a ciência, e não vejo a religião distante dessa onda.

E aí, seria essa uma tecnologia positiva ou negativa?

Fica a dica pra quem teve paciência de ler tudo: séries Westworld e Years and Years, ambas da HBO.

Fontes e saiba mais em: WiredChristopher J. BenekTecnomundoWay of The Future e Trans-humanismo cristão

Ter autoconhecimento é superestimado?

Sócrates uma vez disse: “Uma vida não refletida (examinada) não vale a pena ser vivida.

Nunca curti a ideia de não saber o que quer da vida, se não souber, creio que devemos ao menos ficar incomodados, e consequentemente, querer ir atrás de tentar descobrir.

E por que é tão importante buscar autoconhecimento?

Porque, assim como imagina em sua alma, assim o homem é.
Esse é um dos saberes registrados no livro de Provérbios.

Costumo comentar para amigos que uma das declarações que norteiam minha caminhada espiritual é: “antes eu ouvi falar a teu respeito; mas agora te conheço”. Jô nos ensina uma distinção entre ouvir falar e conhecer.

Esse lance de conhecer é tão importante que me vem a memória aquela condenação que muito religioso por aí pode passar no final. Quando um cara que se autointitulava um homem do bem, um extraordinário cristão, e até vejam só, fazia milagres, se encontra diante de Deus, e Ele apenas vira pra ele e diz: eu nunca te conheci.

Saindo do contexto religioso, a minha busca pelo autoconhecimento neste ano por meio de terapias, leituras e até meditação (que tinha preconceito), me ajudaram nesse processo de conhecer mais minha inteligencia emocional, e até da chamada QS: inteligencia espiritual. (Livro de Danah Zohar).

Self-deception

Outro movimento que decidi fazer foi o de participar de ações sociais.

É engraçado, mas não ficar olhando só pra si, as vezes ajuda nessa marcha em direção ao autoconhecimento.