Quando as lágrimas valem mais que a Teologia.

Pare de ficar triste!

Deus está no comando de tudo! Por que você está assim?

São incentivadores comuns que ouvimos, não raras vezes por pessoas bem intencionadas.

O livro de Jó é sobre uma pessoa supostamente boa que passou um baita perrengue na vida. Do dia para a noite ele perdeu tudo: filhos, seus bens materiais e sua saúde.

Não demorou muito até seus amigos aparecerem para o consolar.

Porém, para seus amigos não havia espaço para o mistério. Nem para ambiguidade. Nenhum espaço para uma dúvida razoável. Eles tinham um moralismo matemático.

Segundo seus amigos, se Jó está sofrendo é possível apresentar uma explicação teológica.

Importante termos em mente que quando pisamos em terreno alheio, devemos tirar os calçados, e reconhecer que estamos caminhando em solo sagrado. Em linhas gerais, isso pode ser também entendido como responsabilidade afetiva.

Por isso, a primeira de dica de ouro é essa: apenas de seu comentário sobre alguém que esteja sofrendo ou angustiado se o outro pediu a sua opinião.

Na sociedade é bem comum encontrarmos pessoas que não seguem essa linha e se apressam para apresentar uma certa prescrição de medicação moral. Como se o mundo fosse em preto e branco. Sem tons de cinza, nem incertezas e nem ambiguidades. Faça isso e isso, e dará tudo certo.

E então, por isso agora apresento a segunda dica: as orações são mais úteis que as prescrições morais.

Digo isso porque algumas vezes, podemos criar uma situação desnecessária de condenação ao invés de conforto e compaixão.

E por que eventualmente agimos assim?

Acredito que nos falte humildade e até mesmo honestidade. Explico melhor.

Eu já me percebi no passado querendo ajudar as pessoas, porém, quando elas melhoravam ou se resolvessem nos seus conflitos, eu notava em mim um sentimento de irrelevância e inutilidade a partir dali.

Mas espere. Por que eu me sentia assim? Notei que estava ajudando para valorizar o meu ego. Criando assim uma relação de codependência: preciso de pessoas precisando de mim.

Como sair dessa?

Evoco Sócrates que nos ensinou a máxima: só sei que nada sei.

Nossa postura para ajudar alguém pode ter inspiração na filosofia ética socrática que nos incentiva a termos uma postura de humildade frente a situações complexas. Quando não queremos oferecer o melhor argumento. Mas sim, estarmos abertos a uma transformação interior, nem que isso seja estarmos expostos às nossas contradições.

Voltando a história de Jó, a teologia dos seus amigos era de regras a serem obedecidas; não de relacionamentos a serem vividos.

O mundo está cheio de pessoas assumidamente más que não sofrem, mas vivem no luxo até o fim de seus dias, e tudo lhes vai bem. A conta do mundo nem sempre fecha, por isso também existem as lágrimas.

Por essa razão, a terceira dica é que não podemos nos limitar a um moralismo simplista do tipo: se você está sofrendo é por que fez algo de errado ou Deus quer te ensinar alguma coisa. Esse moralismo simplista não dá espaço para as lágrimas.

Ao sermos rápidos para os clichês, e lentos para orar certamente podemos cair nesse equívoco de passarmos uma teologia fria.

Nós nunca iremos compreender totalmente a Deus. Logo, muito menos seu modo de agir, por essa razão não é recomendado em situações de luto ou de doença terminal apresentarmos discursos prontos. Acredito que isso vale também para esses dias atuais de pandemia.

Que nossas mentes não fiquem pequenas, nem nossas emoções limitadas! Tanto quanto a complexidade da angustia das pessoas que estão sofrendo em nossa volta.

Pedir à Deus por mais sensibilidade, é minha quarta dica.

Entre ter a falta de eloquência ou a insensibilidade. Tenha medo de ser insensível.

Há pessoas que estão chorando que não procuram encontrar uma resposta, mas sim serem encontradas por Deus. Não à toa, de tempos em tempos, não conseguimos o que queríamos, mas o que precisávamos.

Por fim, minha quinta e última dica é: tente deixar de lado a tendência que todos nós temos de dar respostas às perguntas, que alguém que está sofrendo nos faz. Em vez disso, responda estando presente no sofrimento dessa pessoa, sentando-se ao lado nas cinzas e chorando com ela.

Lembre-se de que o silêncio pode ser mais eloquente que o discurso, e as lágrimas podem ser mais eficientes que a teologia.

Não à toa, por duas vezes, a Bíblia registrou histórias que a resposta de Jesus para um problema era simplesmente o choro. Ainda que ele possa ser sim consolado, as lágrimas devem existir.

As lágrimas e o silêncio sendo mais eloquente que a teologia.

Falando sobre o tabu de “dar um tempo” na relação.

Quem aqui já passou, ou passa por essa situação de ter que lidar com a seguinte informação: “Querido(a), precisamos dar um tempo…“?

Podendo essa justificativa ser “para me conhecer melhor“, ou seja o que for, esse é um tema que costuma atormentar e suscitar diversas questões internas em um ser humano.

Lá vou eu me aventurar, e começarei comentando sobre os diferentes sentidos da palavra tempo em si.

Tipos de significados para a palavra tempo.

Tempo histórico (Cronos): essa noção de tempo, geralmente é ancorada em alguma convenção social. Por exemplo, um documento que registre que estamos no século 21, ou que determine que hoje é quinta-feira, e que amanhã seja dia dos namorados. Esse calendário imaginário é isso. Tem a função de organizar e nos ajudar a planejar a nossa vida baseada nessa construção coletiva imaginária.

Tempo biológico ou celular: neste sentido, a questão do tempo não é criada por convenções sociais. Mas quem dita esse ritmo é o nosso próprio corpo. Por exemplo, uma pessoa entediada pode dizer para si mesma olhando para a parede que o tempo não está passando. Mas pera lá um pouquinho, o tempo está passando sim, nossa fisiologia celular está em constante transformação, mesmo que sintamos que nada está mudando. Vamos perdendo a elasticidade de nossa pele, e o que podemos fazer no máximo é retardar esse processo, hoje por meio de cirurgias estéticas.

Tempo psicológico: já este é influenciado pelo tanto de coisas que temos em nossa cabeça que pode nos deixar ansiosos vendo que supostamente o tempo está passando devagar demais. Voltemos para a situação da pessoa que está entediada e recebe o telefonema de uma oportunidade de trabalho, e ela é informada que deve estar no outro lado da cidade em meia hora. Esse tempo que para ela estava passando arrastado, agora sua sensação é que passará depressa demais.

Tempo físico: quando você olha para uma estrela, pode ser que ela não esteja mais lá. Isso acontece porque até a velocidade da luz chegar aos nossos olhos existe um certo delay, que faz com que o tempo se torne nesse caso relativo. Sendo presente para nós algo que já é passado, dependendo de onde o objeto observado se encontra.

Tempo sociológico: aqui o contexto do lugar em que você está tem influência. Se você é um paulistano, a forma com que você se relaciona com o tempo provavelmente é diferente da forma de um morador de uma praia isolada, onde tempo por lá passa devagar. Isso acontece porque esse significado de tempo depende dos vínculos materiais que estão associados ao seu cotidiano.

Tempo Kairós: na mitologia grega, Kairos era filho do Cronos, sendo ele o deus das estações ou oportunidades. O que expressava uma ideia contrária de seu pai. Outra forma prática de se entender esse significado é se questionar: “por quanto tempo dura um novo corte de cabelo?” essa resposta é subjetiva que esse tipo de tempo nos entrega.

Ainda sobre o Kairós, agora dentro da teologia, o tempo de Deus (O Eterno) está associado a essa noção de tempo, pois está escrito na Bíblia Cristã que: “(…) um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pedro 3:8)

Legal, Mateus, mas e ai? Qual é o tipo de tempo que estou vivendo com minha cremosa ou meu crush?

Bom, no próximo tópico falarei mais sobre “o pedido de tempo” dentro da vida como ela é.

O tempo não para.

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não para

trecho de canção de Cazuza chamada “O tempo não para”.

Tenho uma amiga que me dizia que “quem pede tempo é relógio“. Risos.

Bom, minha opinião direta, que está longe de ser canônica ou categórica, é que em uma relação onde um ama o outro, dificilmente alguém decide correr o risco de perder esse diamante que encontrou.

Além das experiências pessoais que vivi, apoio meu pensamento no best-seller Mulheres Que Correm Com Os Lobos da autora Clarissa Pinkola. Segue imagem do trecho em destaque:

trecho das notas do livro Mulheres que Correm Com Lobos de Clarissa Pinkola.

Imagine que você está com sua parceira (o) vendo um filme. E um dos dois decidem firmemente dar pause, mas o outro(a) não quer que esse pause seja dado. Bom, as opções que restam neste controle para essa pessoa contrariada são duas: voltar para trás, ou avançar para frente.

Conheço muitos e muitas que optam em viver voltando para trás enquanto está nesse pause. Ficam rememorando e rememorando lembranças. Desde bons e únicos momentos, à culpas de possíveis erros que pode ter cometido e poderiam ter motivado que seu companheiro(a) optasse pelo pause.

Mas engana-se quem ache que tudo está de fato em pause. Como vimos, o mundo roda e nosso corpo biológico se transforma quer queiramos ou não. Estamos a todo momento criando novas lembranças e sinapses.

Neste caso, é recomendável que prestemos atenção em como nos comportamos nesse suposto período de pause. Recorro novamente a Bíblia para citar trechos de uma famosa passagem que está em Eclesiastes 3:

“Para tudo há uma ocasião certa;
há um tempo certo para cada propósito
debaixo do céu:

tempo de chorar e tempo de rir,
tempo de prantear e tempo de dançar,

tempo de abraçar e tempo de se afastar,

tempo de procurar e tempo de desistir,
tempo de guardar
e tempo de jogar fora,

tempo de calar e tempo de falar,

tempo de amar e tempo de odiar,
tempo de lutar e tempo de viver em paz.”

Creio que aprender a contar nossos dias seja uma atitude sábia.

Não permitir que tudo ocorra de modo automático ou deixar nosso tempo de vida à mercê do tempo de terceiros seja um bom desafio.

Ter a coragem para se esforçar em ser o protagonista de sua própria vida e não permitir que seu tempo fique supostamente travado, sendo que na realidade ele nunca esteve parado.

O tempo não para, e é libertador ter forças para viver dessa forma.

Será que as vezes não precisamos colocar um ponto final, onde insistimos sozinhos colocar uma virgula?

Série Friends, onde os personagens Rachel e Ross vivem o drama da pausa.

Ter autoconhecimento é superestimado?

Sócrates uma vez disse: “Uma vida não refletida (examinada) não vale a pena ser vivida.

Nunca curti a ideia de não saber o que quer da vida, se não souber, creio que devemos ao menos ficar incomodados, e consequentemente, querer ir atrás de tentar descobrir.

E por que é tão importante buscar autoconhecimento?

Porque, assim como imagina em sua alma, assim o homem é.
Esse é um dos saberes registrados no livro de Provérbios.

Costumo comentar para amigos que uma das declarações que norteiam minha caminhada espiritual é: “antes eu ouvi falar a teu respeito; mas agora te conheço”. Jô nos ensina uma distinção entre ouvir falar e conhecer.

Esse lance de conhecer é tão importante que me vem a memória aquela condenação que muito religioso por aí pode passar no final. Quando um cara que se autointitulava um homem do bem, um extraordinário cristão, e até vejam só, fazia milagres, se encontra diante de Deus, e Ele apenas vira pra ele e diz: eu nunca te conheci.

Saindo do contexto religioso, a minha busca pelo autoconhecimento neste ano por meio de terapias, leituras e até meditação (que tinha preconceito), me ajudaram nesse processo de conhecer mais minha inteligencia emocional, e até da chamada QS: inteligencia espiritual. (Livro de Danah Zohar).

Self-deception

Outro movimento que decidi fazer foi o de participar de ações sociais.

É engraçado, mas não ficar olhando só pra si, as vezes ajuda nessa marcha em direção ao autoconhecimento.

Fiquei na dúvida se estava banalizando ou amadurecendo

Acho que o processo de amadurecimento implica em deixar de se apressar para dizer sim ou não, e recorrer mais ao uso da palavra depende.

Oscar Wilde disse que: “não sou jovem o suficiente para saber tudo”.

Reconhecer que o mundo tem muitas áreas cinzas, e admitir que há um contexto que pede um mínimo de ceticismo, são palavras formais para a poesia de Raul Seixas: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante. Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Entretanto, reconheço que o que é vendido na pós-modernidade por meio de clichês como “não há verdade absoluta”, seja uma baita besteira. Já que essa própria declaração se auto condena como uma verdade questionável.

A tentativa de banalizar o conceito da verdade em sua totalidade, não significa necessariamente uma demonstração de amadurecimento.

Há uma frase no livro mais vendido da história que diz: “O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina (lacração ou mitada da época) e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro.

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BolsoLula. A união do universo da mitosfera com a lacrosfera.

Essa antiga frase me parece bem atual nessa era de pós verdade, que ao invés de entregar pessoas maduras e supostamente bem resolvidas, seguem perdidas e aparentemente mais angustiadas pelo acúmulo de informações e vozes.

Longe de mim ser o “coach da verdade”, já que nem sou mais jovem o suficiente pra isso.

Mas com a evolução das fakes news e deep fakes, entendo que a tendência desse descolamento da verdade em sua totalidade não nos torne necessariamente mais maduros, mas sim mais banais.

Foi necessário eu escrever esse textão e fazer esse site?

Depende.